Hoje é sexta, dia de saudade, de vontade de pegar a estrada e rever os meus, eu que vivo distante os dias da semana, a trabalhar nessa barranca de rio, do Rio Grande, no limite paulista e mineiro, lá no quase extremo noroeste do mapa, sempre aflito para voltar para casa.
Levantei-me com a sensação de que os filhos meus ainda são pequenos e que me perguntarão, quando eu chegar neste final de semana e me preparar para ir a algum lugar: - Pai, aonde você vai? E eu responderei, como sempre, tal qual faria minha mãe, como de fato fez quando eu mesmo era criança, várias vezes: - Na festa catsumbula!
Fico imaginando se minhas crianças, quando eram crianças, ao ouvir esse nome inventado, ou trazido pelos meus avós da Itália, não sei bem, porque todos os meus primos também ouviam a mesma resposta, também achariam, como eu achava, o quão divertida deveria ser a festa. Nada que é catsumbula pode ser monótono, lento, arrastado. Há de ser alegre, com convite a muitas brincadeiras, sem comportamentos sociais rígidos, uma festa com esse título. Hão de ser de todos os tipos e cores as roupas dos convivas, e eles próprios também, cada qual com suas características, confraternizando as diferenças.
Era assim que eu imaginava a tal festa, quando menino: uma festa do tipo natal na casa de meus avós, onde não se cantavam cânticos, nem liam-se os textos evangélicos indicados pelo lecionário católico, apesar da tradição. Nos encontrávamos a todos, a grande família italiana que, além dos filhos e netos, noras e genros de várias origens, espanhóis, iugoslavos, portugueses, ainda era composta pelos muitos amigos dos meus avós, alguns italianos, outros húngaros e dois negros tidos em altíssima estima pelo meu avô, um deles de nome Seu Maíde (o outro não me lembro o nome), suas famílias e os inúmeros afilhados que chegavam e saíam ao longo do dia 24, ao menos de 2 ainda me recordo eram filhos de amigos convalescentes dos tempos em que minha avó estivera longos meses interna em um hospital para tratamento pulmonar, em São José dos Campos, quando a mesa nunca ficava nua, e os pães, os vinhos, os assados, as conservas, o queijo provolone, o brodo e o finuccio eram partilhados com quem chegasse.
Nessas ocasiões, a diversão estava garantida quando quaisquer dos meus primos mais velhos, inclusive meu irmão, até meus avós levava um namorado ou namorada a apresentar pois já sabíamos, de antemão que, se para ele fosse a primeira apresentação teria o candidato de sorver, obrigatoriamente, uma taça de vinho tinto, a qualquer custo, estivesse ou não habituado, e não foram poucos os que, burlando a fiscalização severa do nono, embebedaram os vasos de plantas da sala da minha avó e, se para ela fosse a direção da apresentação, era sempre divertido observar o semblante de quem não sabe o que responder quando minha avó perguntava, antes mesmo do nome da candidata, como se essa fosse a principal habilidade para o pretenso processo de ingresso na família: - Você sabe fazer molho de macarrão?
Esta a casa dos meus avós, que eram verdadeiramente catsumbulos!
Não entendia muito bem o motivo pelo qual crianças não eram jamais levadas à festa catsumbula à vista do meio sorriso de meus pais quando respondiam que lá iriam, ou de lá tinham voltado, pois me parecia ser a comemoração essencialmente infantil, pelas expressões leves e também divertidas que traziam.
Os olhinhos negros de meus dois filhos também me fitavam interrogativos, quando ouviam a resposta à famosa pergunta: - Pai, aonde você vai?
Não me recordo exatamente quando, mas sei que ainda pequeno eu já sabia que, quando a festa era catsumbula, significava que a nenhum lugar iriam meus pais, ou em nenhum teriam estado, e creiam, isso sempre foi para mim um desconsolo, uma vez que jamais se deveria perder uma festa catsumbula, onde quer que estivesse acontecendo.
Atualmente, adulto, não preciso mais da companhia de meus pais e não perco uma festa catsumbula, em qualquer circunstância. Será que hoje haverá uma?
sexta-feira, 31 de julho de 2009
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Bem... se houver uma dessas, eu também quero ir!
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