Hoje é quinta-feira e as quintas-feiras me são saudosas. Como me sinto um forasteiro em qualquer lugar que já estive, desde que saí de minha cidade, há 16 anos atrás, qualquer detalhe, como um dia da semana, um nome, uma palavra dita com um sotaque familiar, me leva a lembrar do que se foi.
Estou habitualmente tentando me convencer de que não sou bairrista, mas confesso que hoje escrevo em tributo à minha São Paulo querida, tão rechaçada pela sua aparente frieza, pela impessoalidade que marca a vida na metrópole, mas que, ao contrário do que se diz precariamente, me deu, gentilmente, assim como a tantos outros, os alicerces para que se criasse em mim alguém que procura cultivar princípios como os da fraternidade humana, da generosidade, do calor, do respeito às diferenças, da admiração pelas coisas realmente simples.
Para quem ainda não sabe nasci e fui criado na Mooca, o bairro mais paulistano de São Paulo.
Minhas primeiras lembranças são da nossa casinha operária de vila, onde passava meus tempos de férias fazendo e soltando “raia” – tipo de pipa - nos meses de vento (julho e agosto), com folhas de papel de seda e vareta japonesa, brincando de peão (sela), montando e desmontando forte apache e jogando futebol de botão feitos de celulóides de relógios, que infernizávamos os relojoeiros das redondezas a nos dar, e que depois eram revestidos, na parte interna, com durex das cores dos times. A maior habilidade estava em, com uma lâmina de barbear, a popular gilette, sem estragar o celulóide, retirar vagarosamente o excesso de durex para que corresse sem problemas no campo, que era constantemente encerado com cera parquetina.
Todas as quintas-feiras a tarde descíamos até a casa dos meus avós maternos, italianos da Província de Catanzaro, na Calábria.
Eram certas nessas tardes de quinta-feira encontrarmos, minha mãe, meu irmão e eu, minha avó na venda (mercearia) que eles tinham, fazendo crochet ou “caça-palavras”, enquanto meu avô dormia sua religiosa soneca. Esperávamos a chegada das minhas tias Amélia, Almelinda e Olga, esta com seus três filhos, meus primos Ivani, Simone e Mauro para irmos à padaria dos “Carillo”, também “oriundi”, e que ficava na mesma rua. A recordação amarelada da vila dos “Carillo”, antigos vizinhos e amigos dos Paravatti, meu avós, é uma das mais marcantes de minha infância: a entrada em arco calçada de pedras, passando pelas casinhas da família até a entrada da padaria, onde os fornos, também de pedra, assavam os pães italianos, que eram colocados em caixas de madeira e separados por tipos: os redondos, pequenos e grandes, os de calabresa, torresmo. Luz pouca. Posso ver, nitidamente, o reflexo da luz natural nas pedras do chão da vila e o avermelhado dos fornos em brasa.
Comprados os pães, o retorno lento à casa de minha avó, onde, na cozinha, reinavam soberanas algumas conservas típicas da região do mediterrâneo, notadamente as de berinjela, especialmente escolhidas de tamanho pequeno e levemente assadas no azeite abundante, depois de recheadas com temperos, tomate maduro e aliche, não sem antes terem sido desidratadas por uma noite, ou inteiramente descascadas, fatiadas e cortadas em finos “palitos”, que eram longa e simplesmente marinadas em bom vinagre de vinho tinto e temperadas com azeite, alho cru, louro e pimenta calabresa.
Nessa mesma mesa a mortadela, que era docemente acompanhada de erva-doce crua, chamada de finuccio. O paulistano café quentinho, passado na hora e forte, era apreciado pelos adultos e crianças, a estas últimas nem sempre permitido. Depois, doces de vitrine, maria-mole entre duas bolachas, canudos de doce-de-leite, guarda-chuvas de chocolate, todos da venda do meu avô que fingia zangar-se com minha avó em razão dos doces tirados da vitrine, mas que pelo olhar tranqüilo e meio sorriso esboçado atrás do seu balcão não conseguia esconder a satisfação de ter à sua volta os netos brincando de encher e esvaziar as conchas de arroz tirado do saco, de descascar laranjas em uma maquininha a manivela que fazia nas frutas umas listrinhas finas e da casca uma serpentina desenrolada em caracóis. E se fazia a festa minha e de meus primos, com tão pouco.
Na volta para casa, minha avó nos acompanhava até parte do caminho, quando parávamos religiosamente em uma banca de jornais e eu, assim como meus primos, recebíamos dela, como presentes, gibis novos e usados...Pato Donald, Tio Patinhas e o cobiçado Almanaque Disney. Já era final de tarde. Hora de voltar e preparar a janta, fazer lição, brincar um pouco com os amigos e vizinhos de então, gente de várias origens, como em qualquer vila da Mooca, e que, pelo processo da mistura, ostentava todas as raças e, ao final, nenhuma: Reynaldo, Vagner, Billy, este o caçula de uma família de Iugoslavos muito querida, Dona Margarida e o Sr. Seman, etnia que, dizem, os primeiros representantes a desembarcar no Brasil foram morar em cortiços pertencentes à nossa família que, nem por isso, era mais abastada ou socialmente superior. Muitos então iugoslavos casaram-se com moças italianas da minha gente.
Hora de entrar para a casa, jantar, às vezes estudar, receber o calor dos momentos com a mãe e pai juntos e, finalmente, dormir.
E assim se acabava a quinta-feira. Um dia especial que guardo na minha memória de menino.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Aiaiai que eu fiquei com fome! Está explicado o clima que eu percebo na sua casa quando você cozinha! Quem precisa ir lá comer uma conserva de beringela sou eu - e levo-lhe uma sopa!
ResponderExcluir