sexta-feira, 31 de julho de 2009

Um livrinho de Pelúcia

Os carros sempre quebram às segundas-feiras. Poderiam quebrar terças, quartas ou quintas, mas quebram, invariavelmente aos sábados, domingos, feriados e, no máximo, segundas. O meu, ou melhor, o automóvel da Usina que eu uso, me deixou na mão na manhã da última segunda quando saía de casa, já atrasado, como habitual, e contava nos dedos as 4 horas e meia que levo até o meu trabalho, antecipadamente nervoso pelo que poderia esperar de um dia curto e lotado de coisas a fazer.

Diante daquele quadro desanimador, manhã de segunda, carro quebrado e chuva torrencial em Botucatu, especialmente na Estância Demétria, bairro rural onde os dias chuvosos são próprios (quer queira-se ou não) para amassar barro com os pés, despachei-me para a oficina mecânica, onde encontrei um assento reservado aqueles que não se separam de sua paixão e de lá não arredam pé até que seu carrinho esteja saudável novamente, o que definitivamente não é o meu caso. Na verdade não me agrada em nenhum nível, e até me irrita, acompanhar os acertos e desacertos dos mecânicos, no seu interminável processo empírico para descobrir o defeito do veículo, baseado no rudimentar sistema do erro e acerto, que eles jamais admitem. Apenas não tinha o que fazer e ainda esperava, quando o relógio apontava 10:00 h, poder seguir viagem naquele mesmo dia.

Olhei no banco de trás do meu carro e vi um livro, despretenciosamente depositado. “Fica Comigo Esta Noite” é o título do livro e também de um samba-canção do Nelson Gonçalves (“....fica comigo esta noite/ e não te arrependerás /lá fora o frio é um açoite/ calor aqui tu terás...”), que não consigo deixar de cantarolar cada vez que lembro o nome da obra, como agora. Tomei emprestado da Aventura, nome divertido da biblioteca da Ana, também divertida, na tarde do sábado (eu acho) anterior em que lá estivemos e, além do livro, por empréstimo, ainda filamos um maravilhoso cafezinho do Ricardo, este sem devolução, mas com contrapartida certa e garantida quando os anfitriões quiserem ir à minha casa, acompanhado de queijinhos “originais” e tudo (o original, feito de leite de cabra, tem sotaque português imitado pelo Ricardo).

Depois de fingir entender as primeiras explicações apresentadas com muita propriedade pelo mecânico e que me deixaram seguro de que as horas de espera não seriam poucas, tomei o livro da Inês Pedrosa nas mãos, de quem já havia lido um “Fazes-me Falta” triste, mas belíssimo. Não me arrependi e, no decorrer do dia, cheguei a dar graças pela segunda chuvosa com carro quebrado: que outra oportunidade teria para devorar o livro assim, todo de uma vez, lido num único sopro, sem as interferências dos mundanos assuntos advocatícios, no trabalho, ou domésticos, também mundanos, em casa?. Doze contos escritos com a melodia do português mais próximo da sua forma original, agora sem sotaque.

Durante minha leitura, entre invisíveis mecânicos e clientes da oficina em frenético vai-e-vem, indignei-me com a fria e livre negativa do filho cineasta ao pedido de seu pai alcoólatra e solitário, cuja glória maior era a memória antiga da resistência à ditadura salazarista, para que com ele ficasse na varanda “por mais meia hora até que o sol acabasse de nascer”, em troca de uma engenhoca eletrônica qualquer. Imaginei a mim mesmo fazendo tal pedido, sob a noite Lisboeta que não conheço. Virei-me na cadeira, que se tornou desconfortável de repente. Já não via mais porcas, chaves de fenda ou parafusos. Não me importava se o automóvel ficaria pronto em 1, 2 ou 3 horas.

Àquelas alturas andava a vontade pelas paginas do livro.

Alguns minutos depois, quando dei por mim estava na porta da oficina, escondendo das pessoas as lágrimas que me corriam, como novamente correm agora que releio o mesmo conto, quando outro pai escarafunchava sua própria dor de saudade pelo desaparecimento da única filha adolescente nas torres gêmeas, atormentado por não ter com ela morrido, e nem tive coragem de imaginar nada. O desespero da ausência. Tenho agora a fronte dolorida.

Ri sozinho com uma fadista contando sua vida a um imaginário companheiro de mesa de café, especialmente para registrar que sua família compartilhava, a própria, o marido e a filha, uma espécie de benção humana que sobre eles desceu, encarnada em um jogador de futebol, o pai por vê-lo no esquadrão nacional, sempre a fazer defesas incríveis, as fogosas mãe e a filha por compartilharem com ele suas camas, a primeira atribuindo a esse sexo descomprometido a salvação de seu desde sempre monótono casamento. Tudo casualmente e em segredo, é claro.

Passava de 15 h quando me levantei da cadeira em frente ao escritório da oficina, olhei o motor exposto do meu carro, sem qualquer pretensão de ver ou entender alguma coisa, notei os capôs abertos, as ferramentas pelo chão, os cartazes da Fiat chamando os clientes para revisão dos seus automóveis, onde o carro era de pelúcia, assim como o ursinho deitado sobre ele...somente nós cuidamos do seu carro como você mesmo o faz... e me dei conta de que, se fosse para mim o cartaz, ao invés de um carro certamente de pelúcia seria um livro que estaria nele estampado, aquele mesmo que tinha em minhas mãos. Pus-me a andar rapidamente para alcançar um lugar qualquer para tomar um lanche, que a fome batia objetivamente. O coração meio disparado, a cabeça tonta das quase 5 h de leitura, a respiração desequilibrada pelos passeios rápidos e descontrolados entre sensações tão intensas e diferentes entre si. Andava rapidamente revendo e tentando reter as imagens já e quase transformadas das cenas dos contos que vivi naquele dia, junto a cada um dos seus personagens, um tanto sem saber onde pararia mas certo de que faria isso somente quando conseguisse vir à tona novamente, pondo fim ao mergulho profundo daquela segunda-feira chuvosa.

2 comentários:

  1. Vou achar o email da Inês Pedrosa e mandar-lhe este teu texto. E, antes que me esqueça, para cá remeterei os alobairristas que assim o desejarem, como vc me autorizou!

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  2. Pai, querido pai,
    nunca num texto lido em um blog tinha mergulhado tanto na narrativa como o fiz exatamente neste momento. senti cada refinada palavra de angustia descrita por sua mente habil.
    Encantei-me com o título, indiscutivelmente genial, e imaginei sem dificuldade o seu olhar lançado ao mecânico enquanto este falava(olhar do tipo:"voce nao faz ideia do que está dizendo, e como eu tambem nao faço poupe-me de suas ecplicações.").
    Gostaria que soubesse que te admiro muito, não só pela sua competencia com a escrita(competencia essa que eu conheço a muito tempo), carater, habilidade em diversas atividades artisticas, sensibilidade quanto ao mundo em geral, em fim, eu poderia escrever qualidades suas até meus creditos aqui na acervus acabarem, mas admiro-te tambem e principalmente pelo amor incondicional que você sente, demonstra, e nos passa como lição de vida, como princípio, como fundamento de sua existencia.
    Creio eu, que isso, sem sombra de dúvida, é a melhor e mais completa lição que um pai, irmão, professor, amigo, conselheiro, e por que não, poeta pode nos passar.
    Obrigado pai, obrigado por tudo o que você no passado, no presente e no futoro está proporcionando a nós, eu minha irmã e minha mãe.
    saiba ao final de essa ladainha, que te amo, como pai, amigo, irmão, etc...
    Um beijo e um abrço apertado,
    Diogo.

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